<p><meta charset="utf-8">Algumas memórias permanecem conosco porque escolhemos lembrá las. Outras permanecem porque encontramos uma maneira de transformá las em algo concreto.</p>
<p>Para a artista visual Melina Mello, a arte se tornou justamente essa forma de preservar. Nascida e criada em Belém do Pará, no coração da Amazônia, sua produção mantém uma relação profunda com os lugares, as pessoas, as tradições e as histórias que ajudaram a formar seu olhar. Mas seu trabalho vai além das referências regionais. Memória, identidade, experiências humanas e as emoções ligadas às coisas aparentemente comuns também ocupam um lugar central em sua linguagem visual.</p>
<p>Trabalhando com tinta acrílica, nanquim, giz a óleo, gesso, barbante e diferentes texturas, Melina cria obras expressivas que não estão preocupadas apenas em reproduzir aquilo que vê, mas principalmente em explorar aquilo que uma imagem pode nos fazer sentir.</p>
<p>Nesta conversa com a Pice Magazine, a artista fala sobre sua infância cercada pelas histórias e paisagens da Amazônia, sobre a construção de sua própria linguagem artística, os lugares inesperados onde surgem suas ideias e sobre por que um artista não pode esperar pelo momento perfeito para criar.</p>
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<p><img src="https://cdn.shopify.com/s/files/1/0791/3989/7668/files/image_6f5aa3cb-c00e-42da-894b-6b681a4a301b.webp?v=1779292735" alt="" width="303" height="404"></p>
<h2>Você pode nos contar sobre sua trajetória como artista? O que a inspirou a seguir pela arte e como seu estilo evoluiu ao longo dos anos?</h2>
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<p>Minha relação com a arte começou de uma forma muito natural. Desde cedo, sentia certa inquietação em desenhar somente no papel ou em me limitar a copiar personagens que já existiam. Quando passava algum tempo na casa da minha avó, pedi a ela que me deixasse desenhar cenas da natureza no muro de seu quintal. Foi assim, ainda muito nova, que comecei a perceber o quanto me atraía o processo de criar e, principalmente, a possibilidade de visualizar combinações que nem sempre conseguimos expressar em palavras: uma memória, um sentimento, um lugar ou um momento específico da nossa vida.</p>
<p>Com o tempo, a arte deixou de ser apenas algo que eu gostava de fazer e passou a ser uma das principais formas que encontrei de compreender e comunicar aquilo que vivi e aquilo que sinto.</p>
<p>Ter nascido e crescido em Belém inevitavelmente influenciou a maneira como enxergo o mundo. As histórias que aprendia na escola e os saberes sobre os seres encantados da região me fascinavam. Comecei a ler cedo, muito por influência da minha mãe, que sempre foi escritora. Ela me ensinava sobre os povos indígenas, sobre a fauna e a flora amazônicas, e meus pensamentos iam longe imaginando as cores, as paisagens, as tradições, as pessoas e toda a riqueza visual que existia ao meu redor.</p>
<p>Naturalmente, esse imaginário encontrou espaço na minha produção artística. Ao mesmo tempo, conforme fui amadurecendo como artista, percebi que meu trabalho não precisava estar limitado ao lugar de onde venho. Passei a me interessar cada vez mais pela memória, pelos sentimentos, pelas experiências humanas e pelos significados que atribuímos às coisas aparentemente comuns.</p>
<p>Meu estilo também foi se transformando junto comigo. Ao longo dos anos, experimentei diferentes materiais e técnicas, como tinta acrílica, nanquim, giz a óleo e o uso de texturas. No início, talvez estivesse mais preocupada com a aparência final de uma obra. Hoje, me interessa muito mais aquilo que uma imagem consegue comunicar, provocar ou fazer alguém sentir.</p>
<p>Também percebi, com o tempo, que não me identifico com ideias que, para mim, permanecem vagas ou silenciosas demais. Minha linguagem tende a buscar o oposto. Gosto da presença, da intensidade, da cor e de imagens que provocam alguma reação. Para mim, a arte conversa melhor quando existe um susto, um impacto, quando alguma coisa na obra nos faz parar por um instante e olhar de novo.</p>
<p>Talvez essa seja uma das maiores mudanças na minha trajetória. Hoje, não quero apenas criar algo visualmente interessante. Quero que exista uma intenção por trás da imagem. Seja partindo de uma memória, de uma experiência, de uma história ou de um sentimento, procuro criar trabalhos que tenham algo a dizer e que não tenham medo de dizê lo.</p>
<h3>Quais temas ou mensagens você busca transmitir por meio da sua arte e como trabalha essas ideias visualmente?</h3>
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<p>Meu trabalho parte das experiências humanas, da identidade e da relação afetiva que construímos com pessoas, lugares e suas histórias. Belém e a Amazônia são parte importante da minha base e da maneira como aprendi a enxergar o mundo, mas não são os únicos temas da minha produção.</p>
<p>Atualmente, estou desenvolvendo uma obra que parte de uma inquietação sobre a influência das redes sociais em nossas vidas e os efeitos que nem sempre são positivos. Pretendo abordar questões como vício, isolamento e ócio, transformando essas reflexões em uma narrativa visual que provoque o espectador.</p>
<h3>Você pode nos contar um pouco sobre o seu processo criativo? Como começa uma nova obra e quais técnicas ou materiais prefere utilizar?</h3>
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<p>Meu processo criativo geralmente começa de forma espontânea. Tenho um pequeno bloco de notas que carrego comigo e onde registro as ideias assim que elas aparecem. Ele já está bastante cheio, e algumas das minhas ideias preferidas surgiram nos momentos mais inesperados, enquanto eu me exercitava, corria, ouvia uma música, assistia a um filme ou simplesmente observava algo ao meu redor.</p>
<p>Normalmente, não trabalho fazendo muitos rascunhos de desenhos antes de pintar. Em vez disso, gosto de escrever sobre cada obra para conseguir visualizar tudo o que estou pensando e também colocar essas ideias para fora. Para mim, é mais fácil desenvolver textos sobre minhas ideias do que necessariamente fazer rascunhos antes de levá las para a tela. A escrita me ajuda a organizar as imagens, os sentimentos e os elementos que quero explorar.</p>
<p>A partir dessas anotações e textos, começo a pensar em como transformar a ideia em imagem, considerando a composição, as cores e os materiais que podem expressá la melhor.</p>
<p>Atualmente, meu material preferido é a tinta acrílica, mas gosto muito de experimentar. Trabalho também com gesso, barbante e giz a óleo, incorporando diferentes materiais e texturas às obras.</p>
<p>E existe uma característica muito presente no meu processo: gosto de pintar com as próprias mãos, literalmente. Em praticamente todas as minhas obras há partes feitas não apenas com pincéis, mas com os polegares, indicadores e outros movimentos das mãos. Gosto dessa sensação de colocar a mão na massa e de ter um contato mais direto com os materiais.</p>
<p>Para mim, a técnica não precisa vir antes da ideia. Primeiro penso no que quero expressar e, a partir disso, descubro quais materiais, gestos e texturas podem dar corpo àquilo que imaginei.</p>
<h3>Quais desafios você enfrentou em sua trajetória artística e como conseguiu superá los? Você teria algum conselho para artistas que estão começando?</h3>
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<p>Acredito que um dos maiores desafios da minha trajetória tenha sido parar de esperar pelo momento perfeito para criar.</p>
<p>Durante muito tempo, percebi que esperava alguma coisa acontecer na minha vida, uma mudança ou simplesmente a vontade aparecer, para então me sentir bem o suficiente para produzir. Mas a arte, para mim, não é apenas uma atividade que faço quando estou inspirada. Ela também é meu trabalho e uma forma de sustento.</p>
<p>Existe um paradoxo nisso. Quando passo muito tempo sem produzir, sinto falta da arte e isso me deixa triste. Ao mesmo tempo, essa própria tristeza pode fazer com que eu produza ainda menos, criando um ciclo difícil de romper. Aprender a reconhecer esse padrão foi muito importante para mim.</p>
<p>Com o tempo, também comecei a perceber algo muito concreto: quase todas as vezes em que consegui romper um período de hiato e voltei a produzir e mostrar meu trabalho, as coisas começaram a acontecer. Vendi obras, atraí pessoas interessadas no que estava criando, recebi encomendas e surgiram novas oportunidades. Hoje, inclusive, tenho obras que fazem parte de uma coleção importante na minha cidade, algo que me deixa muito feliz.</p>
<p>Por isso, meu principal conselho para outros artistas é: não espere se sentir perfeitamente bem ou inspirado para começar. A inspiração é importante, mas não podemos depender dela para produzir. Às vezes, é o próprio ato de começar que nos devolve a vontade de continuar.</p>
<p>Se você não movimenta o seu trabalho, dificilmente o mundo vai movimentá lo por você. Percebi isso na prática. Todas as vezes em que eu voltava a produzir, expor e compartilhar o que estava fazendo, as oportunidades também voltavam a aparecer.</p>
<p>Acho que essa foi uma das lições mais importantes que a arte me ensinou. Muitas vezes esperamos que alguma coisa do lado de fora mude para que então possamos mudar por dentro, quando, na verdade, o movimento precisa começar no sentido contrário.</p>
<p>A mudança começa de dentro para fora.</p>
<h3>Como você enxerga o papel da arte na sociedade e que impacto espera que seu trabalho tenha sobre o público? Existe alguma reação ou interação com espectadores que tenha marcado você?</h3>
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<p>Acredito que a arte tenha um papel muito importante na sociedade, algo tão significativo que é difícil colocar em palavras, mas vou tentar.</p>
<p>Para mim, é aquilo que se conecta com o espírito das pessoas e que pode nos fazer sentir algo parecido com o que sentimos quando nos apaixonamos. É algo profundamente íntimo e, ao mesmo tempo, imenso. Como dizer que algo assim não é importante?</p>
<p>A arte consegue comunicar aquilo que nem sempre encontra espaço ou palavras para ser dito. Ela registra épocas, preserva memórias, questiona comportamentos e também nos permite reconhecer, nas experiências dos outros, coisas que nós mesmos já vivemos.</p>
<p>No meu trabalho, espero principalmente provocar alguma reação. Não gostaria que alguém olhasse para uma obra minha e simplesmente passasse por ela sem sentir nada, como se fosse apenas mais uma.</p>
<p>Essa reação não precisa ser necessariamente confortável, nem precisa ser a mesma que eu senti enquanto criava. Gosto da possibilidade de uma obra despertar curiosidade, identificação, incômodo, nostalgia ou até fazer alguém construir uma interpretação que eu mesma não havia imaginado. Quando isso acontece, costumo me surpreender, e acho essa troca muito interessante.</p>
<p>Algumas das interações que mais me marcam acontecem justamente quando alguém encontra uma memória própria dentro de uma obra minha, quando reconhece um lugar ou identifica uma sensação que também já experimentou. Nesse momento, minha arte deixa de pertencer somente àquilo que eu quis comunicar e passa a carregar também a experiência de quem a observa.</p>
<p>Acredito que seja esse tipo de encontro que mais me interessa. Eu começo uma obra a partir de algo que quero dizer, mas não quero determinar tudo o que ela deve significar para quem a vê.</p>
<p>Se ela consegue fazer alguém parar, sentir, lembrar ou conversar sobre alguma coisa, então já existe ali uma troca.</p>
<p>E, para mim, essa é uma das maiores potências da arte.</p>
<h3>Uma Linguagem para Guardar Memórias</h3>
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<p>Existe um forte sentido de pertencimento no trabalho de Melina Mello, mas talvez o que torne sua produção especialmente interessante seja o fato de que suas pinturas não nos convidam apenas a olhar para um lugar. Elas nos convidam a lembrar o que um lugar pode significar.</p>
<p>Belém, a Amazônia, as memórias da infância, as questões sociais, as experiências pessoais e as emoções passageiras tornam se pontos de partida. A partir deles, Melina constrói suas imagens por meio da cor, da textura, da escrita e do toque.</p>
<p>No fim, seu trabalho parece retornar a uma ideia simples, mas poderosa: algumas coisas merecem permanecer.</p>
<p>Um lugar. Um sentimento. Uma memória. Uma história.</p>
<p>E, às vezes, uma pintura é a maneira que encontramos de garantir que elas permaneçam.</p>